sábado, 23 de maio de 2009

Entre o tempo


Traços escassos que correm no tempo

São apenas um retrato do passado momento


Dar vida ao interior

Ao que vem de dentro

Fazer falar a voz interna

E jogá-la ao vento


Sento e escrevo

Repasso as folhas e os instantes

Mais um dia , mais uma palavra

E assim eu tento


Escrever

A peça imperfeita

Da minha história sem tempo


Sem relógios, sem ponteiros

Só o espaço

Que sobra nessa incansável eternidade

Entre a palavra e o pensamento



terça-feira, 7 de abril de 2009

O Amor de Maiakovski



"Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe,
pelo menos a Terra".



Vladimir Maiakovski

- Com certeza um dos meus poetas preferidos, não só pela obra, mas também pela intensidade existente em cada palavra.


terça-feira, 17 de março de 2009

Sem condições


Recebi um email hoje de manhã sobre a Índia, e nele haviam frases de Gandhi e Madre Teresa de Calcutá. A frase que mais me chamou atenção foi esta "Não ame pela beleza, pois um dia ela acaba. Não ame por admiração, pois um dia você se decepciona. Ame apenas, pois o tempo nunca pode acabar com um amor sem explicação".

Acho que eu nunca havia pensado dessa form
a, é tão fácil classificar as pessoas em relação se podem ou não serem amadas por nós, que elas são encaixadas dentro dos nossos próprios esteriótipos. Surgindo assim, um amor pseudocapaz, já que ama dentro de limites e condições.E talvez nem seja amor, pode ser um mix de sentimentos confusos. Não sei muita coisa sobre amor e sentimentos afins quando esse se refere a relacionamentos amorosos, até porque tenho o grande defeito de ficar fugindo disso,mas me parece errado tentar encaixar as pessoas dentro do que seria possível pra você. Amar pela beleza, parece ser fútil, amar por admiração é fazer com que a pessoa seja colocada em um pedestal longe dos defeitos, só que um dia ela te decepciona e aí a queda vai ser feia.

Acredito que tanto Gandhi como Madre Teresa passaram por esse mundo e tentaram nos mostrar que o amor simplesmente não tem condições. Amar sem motivo, sem explicação, fazer com que ele desabroche da sua repressão interna é uma tarefa difícil,mas com certeza não é impossível.


Quadro: Os amantes - Magritte

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Um carnaval diferente


Este ano resolvi ter um carnaval diferente. Não aluguei mil filmes e nem fiquei dormindo o dia inteiro, simplesmente resolvi aproveitar.Ninguém me levou a sério quando disse que ia pra Olinda, mas acabei indo e foi muito bom. O carnaval sempre foi uma festividade “nada a ver” comigo, não só por ser sinônimo de aperto, multidão e calor, mas também por todo um contexto de descontração geral. Contudo, acabei me surpreendendo. Valeu com certeza o calor, a chuva e a paciência para levar tudo na brincadeira.Acredito que por trás de toda essa festividade existe uma tradicional cultura repleta de significados, como é o carnaval de Olinda e Recife.De pessoas vestidas de caboclinhos a cotonetes, tem espaço para tudo. Já estou pensando na fantasia do ano que vem, e montando estratégias para no show de Nação Zumbi não ser amassada.Entretanto, mesmo nessa correria entre Recife Antigo e Olinda, deu tempo para começar a ler o livro A menina que roubava livros, assistir alguns seriados, escutar muita música e estudar para duas apresentações de trabalhos. E olha que hoje ainda é segunda.Então, para quem não conhece o carnaval daqui procure se informar para no ano que vem estar por aqui também.E sinceramente é muito mais alegre que esses carnavais de escola de samba.



Foto: Alexandro Auler

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Lavorare stanca


- Depois de tentativas infinitas de postar um vídeo aqui eu acabei por desistir "temporariamente" dessa idéia.Sendo assim, coloquei o texto de um poema de Cesare Pavese.
O link do vídeo está embaixo.


"Atravessar uma rua fugindo de casa só um menino o faria, mas este homem que passa todo o dia nas ruas não é mais menino e não foge de casa. Em pleno verão, até as praças se tornam vazias de tarde, deitadas sob o sol que começa a cair, e este homem que chega por um parque de plantas inúteis detém-se. Vale a pena ser só para estar cada vez mais sozinho? Simplesmente vagar, pois as praças e ruas estão ermas. Forçoso é abordar uma mulher e falar-lhe e fazê-la viver com você. Do contrário, se fala sozinho. É por isso que às vezes algum bêbado à noite dispara discursos e repassa os projetos de toda sua vida. Certamente não é esperando na praça deserta que se encontram pessoas, mas quem anda nas ruas se detém vez ou outra. Estivessem a dois, mesmo andando na rua, sua casa estaria onde está a mulher. Valeria a pena. Mas de noite essa praça retorna ao vazio e este homem que passa não vê as fachadas entre luzes inúteis nem ergue seus olhos: sente só o ladrilho que outros homens fizeram com mãos secas e duras, assim como as suas. Não é justo deixar-se na praça deserta. Com certeza há de andar pela rua a mulher que, chamada, viria ajudar com a casa."



http://www.youtube.com/watch?v=u-Dd3Ud0Zwo



segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Pseudo juízes sociais



Qual o significado de um rosto?
Representa a personalidade ou um padrão de beleza?
Tenho pensado a respeito de conceitos. Não sei ao certo quando surgiu a atual padronização das pessoas. Pode ter se delineado com a religião, e ficado mais forte com o aparecimento da indústria. Existem muitas teorias sobre isso, mas a minha teoria talvez tenha um caráter mais intrínseco. Constantemente rodeamos nossa vida com padrões, esteriótipos definindo coisas abstratas como liberdade, sucesso, beleza,etc.
Com o passar dos séculos chegamos ao ponto de olhar para alguém e julga-lo, defini-lo e retratá-lo. Nos tornamos senhores da moral,juízes sociais, me refiro a moral porque ela norteia os costumes que caracterizam as tendências sociais. Como por exemplo: as regras éticas. Chegamos ao ápice do egocentrismo julgando a vida de um ser.
Velhos costumes sociais geralmente demoram muito para acabar, infelizmente. A Idade Média continua fresca em nossa memória, só que ao invés de pessoas queimarem na fogueira, hoje elas queimam nos círculos sociais. Estamos em época de confraternização, e o principal assunto que existe nas reuniões é a vida alheia. Não interessa em qual festividade você esteja, o assunto fútil sempre é o mesmo.
E eu me pergunto o quão vazia nossa vida é para deixarmos ela sempre de lado para falarmos da dos outros?
Pobres vidas essas, realmente pobres.
Eu só me pergunto qual é o sentido de nos confraternizarmos para julgar os outros, de criarmos padrões para suprirmos o nosso vazio interno. Acredito que não seja só a natureza gregária e a hipócrita necessidade de falarmos da vida alheia que nos mantém juntos.
Existe algo maior, a evolução em grupo. Não importa se é natal ou páscoa, uma época de confraternização existe para a troca de experiências,ou seja, a celebração do crescimento em grupo. Também não importa como fisicamente são as pessoas reunidas, rostos e roupas nunca foram padrões para inteligência. A humanidade já tem um tempo relativo de existência, então, já passou da hora para ela amadurecer, fazendo com que cada um cuide de sua vida.
Um dia, finalmente, as pessoas serão senhoras de si, e não falsas juízas da boba vida social.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Da fantasia a realidade


Após uma vida inteira de leituras e filmes, parei para reparar na influência que eles exercem e exerciam em minha vida. Cheguei à uma pequena conclusão, às vezes fugimos da realidade para tentar fazer da nossa existência uma pequena história.Ou seja, ocorre uma transmissão de desejos e idéias expressos na fantasia para o mundo real.A arte de sonhar e trabalhar nossa imaginação é muito boa,mas as vezes podemos nos confundir nesse emaranhado de magia e ficção.
Sempre que assistia um filme ou lia um livro,na minha infância, eu ficava com um desejo enorme de viver tudo aquilo, como se a realidade não tivesse graça e o mundo mágico fosse maravilhoso.Ainda bem que com o tempo percebi o valor do mundo efectivo e passei a vivê-lo verdadeiramente.
O problema é que muitas pessoas não conseguem se desvirtuar da fantasia, já que nelas encontram todas as possibilidades de viver.Isso não quer dizer que na vida delas não existem chances de mudanças, e que elas não podem se transformar naquilo que desejam.Realmente seria muito bom se nossa realidade fosse mágica cheia de aventuras, mas o caso é que não é. E não adianta passarmos a vida inteira sonhando como nossa vida deveria ser, estamos fugindo da nossa própria existência sem ao menos nos dar a chance de construí-la. Desistimos do nosso mais precioso bem por algo utópico.
O fanatismo pelo fantástico tem ocorrido com muita frequência na classe mais jovem,talvez por julgarem que esse mundo não tem graça, mas mesmo assim para mim parece uma contradição. Pensemos...Por que alguém daria mais importância a imaginação de sua vida do que ela própria? O motivo que eu encontro é que as vezes nossa realidade pode ser muito dura e fica mais fácil fugir para dentro de nós mesmos do que enfrentarmos a vida.Contudo, ao mesmo tempo que fugimos para o interior do ser passamos a viver em um processo utópico e alienante. E na minha visão seria contradição tudo isso, pois de certa forma já vivemos em processo alienante na nossa vida externa,ou seja, alienação externa e fuga para alienação interna.
Não que eu ache que quando nos voltamos para o nosso interior estamos nos alienando,pelo contrário, quando me refiro a voltar para si é algo bom porque estamos dando voz a nós mesmos, esquecendo do barulho e da influência externa.E isso é diferente da expressão fugir para o interior, pois essa última é um sistema de fuga que ocorre pela negação da realidade externa,sendo isso nada bom.
Não sou contra a imaginação ou o sonho,só acho que eles são algo que nos dão esperança por alguma coisa melhor, e não a transformação para uma realidade concreta como muita gente faz.Talvez nesse mundo moderno falte um pouco de espaço mágico para os sonhos, é tudo tão controlado e racional.Se fosse para escolher como minha vida poderia ser, eu diria que seria algo celta com batalhas épicas,mas como não é,não vou me vestir de celta e fingir que vivo em outra era.
Mas sei que posso guardar o místico com o heróico em alguma parte da minha vida,fazendo a minha fantasia se tornar um pouco mais real.

Trilogia da desconstrução III

Nesses traços escassos, retorno no tempo e vejo aquele retrato amarelado sobre a mesa tirado em algum lugar do passado. Sinto o che...