quarta-feira, 1 de julho de 2009

Sem o Tempo

Eu e o tempo nos separamos

Ele saiu de casa

E eu o chamei de volta, mas ele se foi

Deixei a porta aberta

Com a esperança

Do seu retorno

Mas nada voltou


Fiquei só

Sem entender o sentido da minha vida

Procurei por respostas, o porquê de sua ida

Mas nada encontrei

A vida seguiu, contudo,

Já não haviam datas para contar

Nem tempo para se medir.

Os dias as horas todos se foram

Só eu fiquei


A porta não se movia

O vento já não soprava

Meus cabelos não envelheciam

Presa na matéria, sem tempo,

Sem morte

Só a espera

De que ele volte
Com olhos profundos e sorriso desconfiado

Fechando a porta da nossa casa

Voltando a dar sentido nessa minha existência, terrena.

Para que um dia a vida termine

E eu me despeça

Deixando a porta aberta

Enquanto ouço ele dizer:

― Volta

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Monólogos humanos

Qual a necessidade de falar?


Com certeza, a primeira resposta a essa pergunta seria se expressar ou se comunicar. A fala, historicamente, possui uma grande relevância, já que sempre foi um dos modos mais eficazes de comunicação. Diferentemente da escrita, a fala reproduz e cobra uma reação imediata do ouvinte, de modo que agiliza a interação entre as pessoas. Na Antiguidade, os participantes do diálogo possuíam uma liberdade maior para refletir antes de declarar sua resposta. Hoje, a escrita até certo ponto permite que os leitores reflitam a respeito do conteúdo lido.


Contudo, tanto a fala quanto a escrita não deixam mais espaço para reflexão, atualmente, pois cobram resposta imediata seja na forma de opinião ou interpretação. E o resultado disso se apresenta nos diálogos vagos e nos textos argumentativos sem conteúdo. Muitas palavras são usadas para expressar o mínimo. O Homem vem abusando das palavras para expressar seus conflitos internos e sua insaciável ansiedade. O ser humano anda vivendo uma intensa carência de ser ouvido, ele não se preocupa mais em refletir internamente, é sempre presente a necessidade de saber a opinião de terceiros.


O Homem senhor da razão e conhecedor de si mesmo, cedeu espaço nesse século XXI para o surgimento do Novo Homem, dominador de grandes tecnologias, ansioso e carente por alguém que o escute. A estrutura emocional humana vem se desfazendo aos poucos, dando o lugar central aos problemas fúteis. A conversa no bar mudou, não é mais sobre a liberdade, os pensamentos inovadores e a posição do homem no mundo. Tudo virou reclamação: trabalho, faculdade, casa, dinheiro, relacionamentos, vida, etc.


Onde está o amor em viver, e não simplesmente enxergar o problema do amanhã, sendo este ainda inexistente. Onde estão os diálogos? Tudo virou monólogo dentro de uma mesma conversação.


Onde está o silêncio? Atormentado pela ansiedade de falar o que ainda não foi pensado, só para ter alguém para escutar.


Onde está o pensamento?

sábado, 13 de junho de 2009

Enamorados Shakespereanos

Verona, século XVI.


Dois jovens apaixonados marcam um encontro no dia de São Valentim.


- Ó minha amada! Versos e poemas para ti são feitos a todo instante.

Diz-me o que pensa deles, Aurora da minha existência inebriante.


- Amado meu! O que posso dizer, não estou à altura desses versos extasiantes.

Só digo, que tu que és meu amado infante.


- Luz celestial que ilumina meu ser! Fujas comigo, sejas minha eterna amante.

Não permitamos que esse muro nos deixe distante.


- Vou contigo se me prometeres ser de hoje em diante meu fiel amante.


- Minha vida é tua, Amor dos mais vibrantes. Vamos, então, rumo à vida que nos espera, fazer do nosso amor triunfante.


- Vamos, que o tempo não espera, mas antes tem um condicionante.


- Fale minha amada amante!


- Só vou se de agora em diante deixarmos de lado essas rimas melosas e grudantes.


...


- Ufa! Achei que ia ter que procurar um dicionário, já estou enjoado dessas coisas irritantes.


- Cala boca e anda logo. Temos que fugir antes que meu pai nos pegue em flagrante.

sábado, 6 de junho de 2009

Família M&M'S



Mãe

O que posso dizer neste momento?

Nasci, cresci e agora estou aqui

Contando nossa história ao vento


Quantas frases caladas

Gritos ecoados e saudade abafada?

Quantas vezes tentei mentir

E depois comecei a rir

Quando você disse: Maria Cecília!


E as nossas conversas “análises”?

Você psicóloga tentando me entender

E eu uma pseudo querendo nos compreender


Ah, nossos cafés filosóficos!

Você com café e eu com chá

Especulando sobre o mundo

Sobre nós, sobre nossos sonhos...


Que louca é nossa relação

Mãe-filha, filha-mãe

Sem convenções ou repressões


Você me olha e sorri

Eu retribuo desconfiada

Você faz drama

Eu reclamo

Quanto é você que reclama

Eu me peço paciência...


Escrevo, desenho

Só falto fazer música

Para você

Mas nem o infinito

Seria suficiente para demonstrar

Tudo o que eu sinto.


Amor

Na mais pura essência

Somente Amor


sábado, 23 de maio de 2009

Entre o tempo


Traços escassos que correm no tempo

São apenas um retrato do passado momento


Dar vida ao interior

Ao que vem de dentro

Fazer falar a voz interna

E jogá-la ao vento


Sento e escrevo

Repasso as folhas e os instantes

Mais um dia , mais uma palavra

E assim eu tento


Escrever

A peça imperfeita

Da minha história sem tempo


Sem relógios, sem ponteiros

Só o espaço

Que sobra nessa incansável eternidade

Entre a palavra e o pensamento



terça-feira, 7 de abril de 2009

O Amor de Maiakovski



"Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe,
pelo menos a Terra".



Vladimir Maiakovski

- Com certeza um dos meus poetas preferidos, não só pela obra, mas também pela intensidade existente em cada palavra.


terça-feira, 17 de março de 2009

Sem condições


Recebi um email hoje de manhã sobre a Índia, e nele haviam frases de Gandhi e Madre Teresa de Calcutá. A frase que mais me chamou atenção foi esta "Não ame pela beleza, pois um dia ela acaba. Não ame por admiração, pois um dia você se decepciona. Ame apenas, pois o tempo nunca pode acabar com um amor sem explicação".

Acho que eu nunca havia pensado dessa form
a, é tão fácil classificar as pessoas em relação se podem ou não serem amadas por nós, que elas são encaixadas dentro dos nossos próprios esteriótipos. Surgindo assim, um amor pseudocapaz, já que ama dentro de limites e condições.E talvez nem seja amor, pode ser um mix de sentimentos confusos. Não sei muita coisa sobre amor e sentimentos afins quando esse se refere a relacionamentos amorosos, até porque tenho o grande defeito de ficar fugindo disso,mas me parece errado tentar encaixar as pessoas dentro do que seria possível pra você. Amar pela beleza, parece ser fútil, amar por admiração é fazer com que a pessoa seja colocada em um pedestal longe dos defeitos, só que um dia ela te decepciona e aí a queda vai ser feia.

Acredito que tanto Gandhi como Madre Teresa passaram por esse mundo e tentaram nos mostrar que o amor simplesmente não tem condições. Amar sem motivo, sem explicação, fazer com que ele desabroche da sua repressão interna é uma tarefa difícil,mas com certeza não é impossível.


Quadro: Os amantes - Magritte

Trilogia da desconstrução III

Nesses traços escassos, retorno no tempo e vejo aquele retrato amarelado sobre a mesa tirado em algum lugar do passado. Sinto o che...