terça-feira, 6 de novembro de 2007

O Poeta




"A vida do poeta tem um ritmo diferente
É um contínuo de dor angustiante.
O poeta é o destinado do sofrimento
Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza
E a sua alma é uma parcela do infinito distante
O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.


Ele é o eterno errante dos caminhos
Que vai, pisando a terra e olhando o céu
Preso pelos extremos intangíveis
Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.
O poeta tem o coração claro das aves
E a sensibilidade das crianças.
O poeta chora.
Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes
Olhando o espaço imenso da sua alma.
O poeta sorri.
Sorri à vida e à beleza e à amizade
Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam.
O poeta é bom.
Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras
Sua alma as compreende na luz e na lama
Ele é cheio de amor para as coisas da vida
E é cheio de respeito para as coisas da morte.
O poeta não teme a morte.
Seu espírito penetra a sua visão silenciosa
E a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério.
A sua poesia é a razão da sua existência
Ela o faz puro e grande e nobre
E o consola da dor e o consola da angústia.


A vida do poeta tem um ritmo diferente
Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu
Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis".



Vinícius de Moraes

sábado, 6 de outubro de 2007

O tempo de aceitar


O passado age de uma forma misteriosa e marcante em nossas vidas. Nos faz lembrar cada detalhe de uma época remota em que não éramos os de hoje. Todas as lembranças antigas nos fazem ter medo e insegurança do Amanhã. Não nos sentimos preparados completamente para enfrentar o futuro dia, estamos presos em nossas próprias reminiscências. Estamos presos a algo morto. O Hoje é a morte do Amanhã. Devemos olhar para trás de uma maneira realista e não amargurada ou saudosa. O que somos agora é o reflexo do ontem. E o que seremos amanhã vai depender de como relacionarmos estas três etapas eternas: o ontem, o hoje e o amanhã. Para usufruirmos bem de nossas experiências passadas, temos que aceitar. Não digo esquecer e sim aceitar. A aceitação é o caminho para a evolução. O passado tem que ser aceito para que assim os sofrimentos, saudosismos e lembranças ganhem um novo aspecto.
Dessa forma, o sofrimento se transformará em aprendizado; o saudosismo, em força; e as lembranças, em efemeridade. Quando tudo já tiver sido aceito, o que é muito difícil mas não impossível, temos que viver o Hoje. Ele é mais fácil que o ontem, mas mesmo assim vem carregado de certos problemas. Viver no hoje é sentir, é enxergar. Os olhos aos poucos se abrem e os sentidos viram realmente sentidos e não mais aspirações. Com o despertar, as milhares de máscaras que você enxergava caem aos seus pés. É a realidade. É o viver no Hoje. Nada de desejos ou frustrações. Apenas a realidade que se desnuda a cada piscar de olhos.
E o passado já não importa mais, pois são várias novas informações para se processar no determinado instante. O tempo passa. Você ainda está no Hoje: não conseguiu se acostumar. Não se preocupe isso demorará. É necessário passar por diversas decepções com a realidade para que se possa conviver com ela, e assim ir para o Futuro.
O mais fácil é o Amanhã. Simples, pois dele você nada lembrará e nem enxergará já que ele não existe. Tantos sonhos e planos, quantas coisas o Ser Humano monta para o amanhã. E a única coisa que ele te dá é a esperança. É o que te impulsiona para a frente. É a força e a luta. É o sentido para viver. Devemos procurar a cada instante um sentido, pois no momento em que ele é alcançado, deixa de existir. Só com consciência tudo isso se realizará, pois quem constrói nossos caminhos e cria nossos sentidos é o nosso Eu. E somente com isso viveremos e não apenas passaremos por essa existência.

sábado, 29 de setembro de 2007

Vergonha politizada


Tenho escutado muito uma palavra, mas ainda não sei seu significado.
Todos a comentam em bares, escolas e jornais.
Sempre é citada junto a roubos, hipocrisia e nacionalismo.
Sempre é colocada como a decadência e a salvação.
Toda essa controvérsia ofusca seu real significado.
O qual eu ainda não consegui entender.
Confusa com tudo isso, busquei no dicionário a solução.
Nele continha maneira hábil de agir e ciência do governo dos povos.
Minha indagação interna só aumentou.
Como essas duas coisas podem estar relacionadas a uma só?
A maneira hábil de agir seria a inteligência.
E o governo representaria o poder.
Mas me pergunto que Poder Inteligente é esse?
Assisto a televisão, leio os jornais e escuto as opiniões alheias.
Assim começo a entender como essa palavra funciona.
Já que ela tenta manipular meu cérebro e me deixa em estado de alienação.
Compreendo agora as conversas e as notícias.
Compreendo o que é política.
Um jogo mental, que manipula meus pensamentos e meus atos.
Ah se os gregos soubessem o que a Politéia deles se tornou.
Estariam profundamente “envergonhados”.
Mas a vergonha é uma coisa antiga.
Que há muito tempo foi esquecida.
Quando Cabral chegou e índios nus avistou.
Numa Terra chamada Brasil.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O Cio da terra


"Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão

Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel

Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, a propícia estação
E fecundar o chão"


Pena Branca e Xavantinho

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Sinceridade


Queria poder te dizer
Queria poder te contar
Tudo o que se encontra aqui dentro
Mas você não sabe lidar com a sinceridade

Você se esconde sob as facetas humanas
E o mundo o encobre
Porque o planeta não sonha
Ele apenas aspira

Quanta inocência contém a sinceridade
E quanto medo se vê nos olhares humanos
Medo de pensar
Medo de amar

É muito mais fácil deixar a vida passar
Do que construir consciente cada dia seu
É muito mais fácil fingir
E está cada vez mais difícil de eu acreditar

Esses anos fizeram-me não ter medo de mim
E percebo quanto medo ainda há em se descobrir
Medo de tentar
Medo de conhecer

Minhas angústias se foram
Hoje elas reaparecem quando sou sincera
Você não está preparado para ver
E eu não consigo fingir

Meu consciente irá esquecer,
Pois tudo isso vai passar.
O que sobrará são as máscaras do mundo
As quais hoje eu resolvi arrancar

domingo, 9 de setembro de 2007

Quem somos nós?


Nesse nosso mundo
Vivemos á paisana da realidade
Coexistimos em nossa própria ilusão
Nessa vida interna de quatro paredes
Apenas consumimos
É o exaurir de nossa existência
Somos mais um
E não vários
Não somos um todo
Somos partes
Nossos olhos não enxergam
Estão perdidos em sua utopia interior
Eles não vêem seres
Só humanos
É o planeta que entrevê somente a si
E esquece do universo
Pensaram os psicólogos
Que assim talvez o ser humano
Conheceria melhor o seu âmago
Que grande engano esse
Já que nunca fomos humanos
Somos então a alienação em matéria
E quase o ápice do primitivismo
Somos reais sem ao menos existirmos
Somos o grão da vida e o verme da morte
Somos imortais sem sermos deuses
Quem somos então?

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Mísera prova de uma Nação

Neste último domingo, dia 26, foi realizado no Brasil o ENEM, Exame Nacional do Ensino Médio, que tem por objetivo medir os conhecimentos gerais dos alunos e contribuir para o aumento de suas notas nas provas das instituições de ensino superior.
Enfim, exame que prova como o país ainda possui uma educação deficitária.
Essa prova foi considerada a mais fácil de todos os anos. Após saber deste acontecimento fiquei feliz e ao mesmo tempo preocupada.
Feliz por ter feito uma prova fácil no ano em que faço vestibular e preocupada por ter sido tão fácil. O que está acontecendo com este País?
A saúde resolveu se rebelar agora depois de anos sem receber bons salários e trabalhando em condições drásticas. Depois de dois anos o julgamento do “mensalão” começa (francamente sabemos que isso não vai dar em nada). O caos aéreo continua...
Surge o movimento Cansei de caráter ainda indefinido, é a burguesia que começa a mostrar a face. Finalmente a educação demonstra que está pior do que antes.
Segundo o PISA, prova que avalia o conhecimento dos estudantes de diversos países, os brasileiros tiveram um resultado horrível, pois dos 41 países que concorreram o Brasil ficou em 37º lugar. Tudo isso comprova que vão ser precisos esforços infindáveis para mudar essa cruel realidade.
O País é um dos piores em matemática no mundo inteiro, considerando os países subdesenvolvidos industrializados e os desenvolvidos. Esse fato foi comprovado com essa última avaliação do ENEM, já que as questões de matemática praticamente não existiram. O governo e o ministério da educação pelo visto estão tentando ocultar o déficit da educação. Foram 63 questões, as de matemática corresponderam 12% da prova, ou seja, 8 questões. Não pensem que esse número é significativo em vista das outras tantas matérias que existem. Todas as oito questões precisavam apenas saber somar, subtrair, multiplicar e dividir. Um aluno que faz essa prova tem em média no mínimo 16 anos, ou seja, está no segundo ano. No ensino médio a pessoa deveria saber muito mais do que simples operações, mas mesmo assim a escola pública não consegue ensinar ao menos o básico. A culpa não é da escola, não é do governo (em partes), não é exclusivamente minha e nem sua. A culpa é da sociedade. A culpa é dessa desigualdade e desse egoísmo. Somos um país uno. Mas frequentemente esquecemos disso.

Onde estão os governantes preocupados em realmente mudar a educação?
Onde está a população? Não a vejo nas ruas...
Onde eu estou?

Será que estou nessa minha mísera e mesquinha felicidade por ter feito uma prova maravilhosa já que ela foi fácil?
Onde estão meus princípios e meus ideais?
Deparo-me com a própria alienação que um vestibular causa. A necessidade de ganhar alguns décimos me deixou por alguns segundos egoísta.
Fico sem palavras...

Mas no meu âmago ressurge minha força de ser contra tudo isso.
Contra essa desprezível ignorância.
Não ficarei mais feliz com uma simples prova, pois enquanto sorrio a pobreza assola lá fora. Enquanto penso em minha nota, milhares de estudantes se preocupam em como vão passar no vestibular estudando em escolas públicas. Infelizmente o Brasil não é o mesmo do passado.
Esqueci a felicidade.

Lembrei da desigualdade que continua prevalecendo em um simples teste. Que tristeza e que mazela contém a sociedade. Não vou mais me perguntar quanto tempo isso durará, os questionamentos não devem ser feitos para mim mesma.
As perguntas precisam ser gritadas pelas ruas, para que só assim o mundo resolva digerir tudo isso que já está em mim engasgado. Almejo não escrever mais sobre isso, mas percebo quantas palavras ainda terei de citar.

Onde se encontra a educação?
Está em um ideal e um povo. Está no direito de todos.

Trilogia da desconstrução III

Nesses traços escassos, retorno no tempo e vejo aquele retrato amarelado sobre a mesa tirado em algum lugar do passado. Sinto o che...